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Um Pouco de Nada

O que penso. O que vejo. O que me faz sorrir. O que acho que vale a pena partilhar.

Um Pouco de Nada

O que penso. O que vejo. O que me faz sorrir. O que acho que vale a pena partilhar.

19
Ago16

Universidade - o 1º ano (Os primeiros desafios!) 2/3

#RapazSecreto

Segunda-feira, 14 de Setembro, dia de apresentação.

 

Começam os olhares e as questões que deviam pairar na cabeça de quem me olhava deveriam ser qualquer coisa como "por que raio está ali sentado aquele cromo?". Muito possivelmente, há dois anos, eu estaria a pensar o mesmo se visse alguém na minha posição, mas hoje eu não sou um deles, hoje eu sou o foco dos olhares. Apesar de tudo, a apresentação foi agradável e decorreu com tranquilidade. Aparentemente, só tinha porque correr bem... Mas nem tudo é o que parece.

 

Terça-feira, 15 de Setembro, dia da primeira aula.

 

Tinha a minha primeira aula às 08h30 e, ao contrário do dia anterior, a chuva fazia sentir-se e o céu estava triste e escuro. Dirigi-me para o auditório, faltavam 5 minutos para a aula começar, abro a porta e percorro com o olhar o fundo do auditório... Não há mesa nem cadeira para mim, somente a secretária e cadeira do professor.

 

O pânico toma conta de mim, bem como a sensação de que não pertencia àquele espaço e a sensação de que a garantia de que tudo estava tratado não passava, afinal, de uma ilusão. Naquele momento, não havia ninguém a quem recorrer, não conhecia o professor nem sabia o que esperar dele, o nervosismo apoderou-se de mim. Não conseguia ficar lá nem mais um minuto, respirei fundo e fiz um sacrifício tremendo para não desabar ao longo do percurso até ao exterior da faculdade.

 

Já no exterior, debaixo da chuva e de costas para a faculdade, até porque não gosto de dar parte fraca, desabei. As minhas lágrimas fundiam-se com a chuva que me molhava a cara e os medos voltaram a instalar-se. Durante esse tempo, falei com a única pessoa que sabe de tudo, a minha mãe, até porque só quem vive 24 horas por dia com alguém que tenha limitações físicas percebe o real impacto que elas assumem na sua vida e o quanto podem fragilizar.

 

Voltei para casa. Fingi que estava tudo bem, mas não estava. O medo consumia-me. Teria sido esta uma situação isolada ou seria aquilo que me aguardaria ao longo de um ano? Da faculdade tranquilizaram-me e explicaram-me que tudo fariam para que tal não se repetisse, mas que nem sempre isso seria possível. A minha cabeça não parou durante aquele dia, a confiança e tranquilidade já estavam distantes.

 

Nessa noite, já bem tarde, conversei com a minha prima e expliquei-lhe todos os receios e a vontade de desistir. Disse-me que tentasse uma vez mais e que tivesse a certeza de que não queria ou conseguia dar aquele passo, naquele momento. Tranquilizou-me, e se ganhei coragem para tentar uma vez mais, a ela o devo.

 

No dia seguinte, tudo correu bem. Percebi que não seria fácil, mas que aquele era o sítio onde queria e deveria estar. Ainda assim, houve dias em que a vontade de desistir era maior que a de ficar, mas, no fim do dia, não me permitia que um mau dia me fizesse duvidar do meu valor e da possibilidade de conseguir concretizar o meu sonho.

 

 

Ao longo do ano, várias foram as vezes em que esta situação se repetiu, comecei a ir mais cedo para a faculdade e assim que chego, a primeira coisa que faço é verificar o auditório, se as portas que preciso de usar estão abertas, se a cadeira e mesa estão lá, para deste modo ter tempo para resolver a situação antes da aula.

 

Outra dificuldade foram as relações interpessoais. A verdade é que a minha autoestima desceu consideravelmente, desde que a doença tomou conta de mim, o que me faz sentir em permanente observação e avaliação e o que, por sua vez, me faz pensar demasiado antes de agir.

 

Ao contrário do meu 12° ano, em que poucos notaram que algo não estava bem (uma tarefa quase impossível), ali nada havia a fazer. Eu estava "isolado" dos outros, sentava-me noutro sítio, raramente frequentava o bar/cantina, devido à confusão, não participei na praxe (que nunca foi um sonho ou objetivo), não entrava nos auditórios pelo mesmo acesso que os restantes colegas e, por fim, passava a maior parte do tempo na biblioteca, o sítio mais calmo e espaçoso, ótimo para quem precisa de espaço e tranquilidade. No fundo, vivi à margem de todos e só falava com alguns colegas por causa dos trabalhos de grupo. Foi assim que conheci dois ou três colegas com quem comecei a manter um maior contacto, porque, de resto, apenas tenho conhecidos. Não era um objetivo meu não conviver, mas foi uma consequência das minhas limitações físicas e, por conseguinte, emocionais.

 

Porque quando o nosso corpo muda e deixa de responder como sempre o conhecemos, também a nossa forma de estar e pensar muda. Não sou quem era há dois anos. Muito muda, desde a perceção da vida até à perceção de que existiram tantas oportunidades desperdiçadas que jamais se repetirão.

 

Mas a vida tem que seguir... 

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